Publicado dia 24/08/2018

Território educativo

Não é fácil conceituar a palavra território. O geógrafo Milton Santos apontou que o maior exercício não seja conceituá-la, e sim entender que uso é feito de sua noção – e que esta é sujeita ao tempo, variável conforme a cultura e idioma.

Milton Santos ainda faz a reflexão de que a identidade, ou “o sentimento de pertencimento àquilo que nos pertence”, é central na concepção de território.

A socióloga Iara Rolnik recorre ao próprio Milton Santos para escrever uma definição que dê conta do território como espaço de produção de relação, e também sujeito a elas: “O território é produto da dinâmica social onde se tensionam sujeitos sociais. Ele é construído com base nos percursos diários trabalho-casa, casa-escola, das relações que se estabelecem no uso dos espaços ao longo da vida, dos dias, do cotidiano das pessoas.”

No chão da escola, do bairro ou da cidade, território, às vezes, pode ser confundido com espaço ou entorno. Para Beatriz Goulart, educadora e arquiteta, não tem problema: o importante é que o território esteja na boca e na prática de educadores, estudantes, gestores e comunidade. “Teorias devem nos querer fazer, não nos paralisar.”

Território na concepção de educação integral: o território educativo  

Quando colada à palavra educativo, o território ganha outra densidade. Território educativo remete a uma concepção abrangente de educação, em que o processo educativo confunde-se com um processo amplo e multiforme de socialização.

crianças em cortejo pela educação integral

Cortejo pela Educação Integral em Belo Horizonte (MG) / Crédito: Neusa Macedo

Para que um território seja educativo, não pode nele existir passividade. “O território é assunto, é conteúdo do currículo, é o lugar onde se dão ações educativas e também é um agente, como se fosse sujeito também. E não dizemos que ele é pedagógico, e sim educativo, porque estamos considerando a educação formal, a não formal e a informal”, fala Beatriz.

Território educativo é um termo caro à concepção de Cidade Educadora, noção que, para além de suas funções tradicionais, reconhece, promove e exerce um papel educador na vida dos sujeitos, assumindo como desafio permanente a formação integral de seus habitantes.

Em entrevista ao Portal Aprendiz, a socióloga Helena Singer elenca quatro características simbióticas para que o território se constitua como educativo:

Projeto educativo para o território criado por quem a ele pertence: esse projeto educativo é fruto de uma participação de todos os agentes do território, desde educadores, pais e mães até as associações de moradores.

– Congrega escolas que compreendem o território enquanto parte do currículo: as escolas funcionam como um órgão vital, poroso aos saberes diversos do entorno e ansiosa para inseri-los em seus currículos – bem como desejosas que o currículo aconteça fora dos espaços formais educativos, como em praças, parques ou museus.

Multiplica as oportunidades educativas: todos estão aprendendo, não apenas as crianças. O desenvolvimento integral dos sujeitos é uma agenda perene.

Articula diversos setores da educação, saúde, cultura e assistência social: trabalha a intersetorialidade e a corresponsabilidade sobre o desenvolvimento dos sujeitos do território.

crianças tem aula de poesia numa praça em belo horizonte

Oficina de poesia livre na Escola Integrada de Belo Horizonte / Crédito; Neusa Macedo

Beatriz Goulart compartilha que um de seus receios em engessar a definição de território educativo é que esse conceito se perca em uma imutabilidade que não lhe cabe. “Território educativo é uma ideia força”, arremata. “Tem uma magia nessa palavra. Quando você fala território educativo, você abre um portal de percepção, onde algumas ideias são desmontadas, outras ficam nebulosas e algumas se esclarecem. A gente pode olhar para a escola e cidade de outros modos a partir do território educativo.”

Políticas e práticas de território educativo

O Bairro Educador de Heliópolis, localizado na zona sul de São Paulo, é um exemplo de território educativo.  Comprometido em desmantelar muros entre escola e comunidade, o território mantém o desafio de professar uma pedagogia democrática e autônoma, onde o saber de um educador é tão importante quanto o de um morador antigo ou de uma criança pequena.

Ainda que o termo tenha sido cunhado apenas recentemente, a concepção de território educativo bebe em educadores de alma genuinamente brasileira. Beatriz Goulart relembra os pioneiros projetos de Anísio Teixeira, que criou as Escolas Parque, e também de Mario de Andrade, com seus parques infantis largamente inspirados nos saberes e brincadeiras tradicionais.

Em relação à políticas públicas, Beatriz chama a atenção para os CEUs (Centro de Educação Unificada), espalhados por São Paulo. Abertos diariamente pela população, eles oferecem desde espaços formais de educação até atividades como piscina, oficinas e laboratórios de ciência.

Outra iniciativa que também incentiva a investigação e catalogação de práticas educativas é o Prêmio Territórios Educativos, feito pelo Instituto Tomie Ohtake em parceria com a organização Cidade Escola Aprendiz e com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. O prêmio busca identificar e fortalecer projetos que exploram as oportunidades educativas do território onde a escola municipal está inserida, premiando iniciativas pioneiras.

crianças seguram cartaz que diz bairro educador

Cartazes segurado por crianças da EMEF Campos Salles, em Heliópolis / Crédito: Fundação Telefônica


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