Todo lugar tem uma história a ser contada. Às vezes, esta narrativa está explícita e baseada em fatos comprovados, descrita em livros e outros registros oficiais. Em outras, é preciso cavar fundo, encontrar aquela única pessoa que viveu para contar. Há ainda aquelas das quais não se tem muita certeza da veracidade, mas são de suma importância para o imaginário dos locais: as lendas.

As narrativas locais são um saber do território pois conferem sentido para um bairro, cidade ou cultura. A história de uma casa que abrigou um cidadão ilustre, dos rios e mares que serviram de barreira e proteção por muitos anos aos ataques inimigos, da rua onde realizavam-se enormes manifestações, da janela que foi palco de um romance. Reais ou fictícias, transmitidas por escrito ou via oralidade, estas narrativas descrevem crenças, valores e modos de ser e viver daquela população.

Cada rua e casa tem a sua, basta estar com os ouvidos atentos. Há histórias que tomam conta do território por uma semana ou duas, já outras podem sobreviver por eras, moldando a visão que se tem de um local e a própria forma de se viver ali.

Estes relatos locais permitem ainda contar a história a partir da perspectiva da memória, conectando os moradores de forma afetiva aos seus pares. A partir deles, cria-se a noção de pertencimento, seja por haver vivido o fato relatado ou apenas por reconhecer-se nele.

Há muito o que aprender e apreender a partir das narrativas. Toda vez que alguém conta uma história, mesmo que esta já seja conhecida, um texto inteiramente novo é criado. Isto porque o contador confere ao ato seus trejeitos, entonação e vocabulário. Pode, inclusive, acrescentar ou suprimir um determinado detalhe.

A busca pelas narrativas locais pode percorrer o território de maneira objetiva, ao caminhar-se pelas ruas e casas, e de maneira subjetiva, desvendando tempos e recordações pessoais. Essa investigação mostra que a história não é única: são várias e podem ser construídas a partir de diversas perspectivas e atores.

PERGUNTAS DISPARADORAS

  • Quais são as histórias oficiais do território? Elas correspondem aos relatos transmitidos oralmente entre os moradores de geração em geração?
  • Quais são as lendas e mitos da região?
  • Há momentos de contação de histórias no território? Como eles acontecem?
  • Que história do território dialoga com suas lembranças afetivas?
  • Há narrativas locais que possuem diferentes versões?
  • Como esse repertório de histórias se relaciona com outras áreas de experiências comunitárias, como as rezas e curas, as receitas, expressões artísticas, etc?