Escrito em parceria com ape – estudos em mobilidade

Andar a pé, de bicicleta, ônibus, carro ou canoa. O modo como cada pessoa se desloca altera sua percepção e relacionamento com o entorno. Também é determinante para essa escolha a cidade onde ela vive e qual estrutura urbana é ofertada para o acesso ao trabalho, lazer e convívio.

A maioria das grandes cidades brasileiras prioriza o automóvel, o que faz com que a malha urbana seja pensada para carros: a largura das vias, a velocidade permitida, a quantidade de semáforos e a ausência ou presença de viadutos impacta tanto o motorista quanto o pedestre, ou quem opta por ser locomover de ônibus ou de bicicleta.

Adequar os lugares de uso público e seus acessos somente ao transporte motorizado individual, no entanto, é uma maneira de privilegiar grupos de pessoas em detrimento de outros. As velocidades impostas pelos fluxos motorizados e ininterruptos das vias tornam as pessoas mais aceleradas, menos atentas e mais cansadas.

Por outro lado, o tempo despendido em bicicletas ou caminhadas estabelece diálogos com o corpo e o espaço, no qual há intervalo para reflexão, apreensão e uso dos diferentes sentidos. É dispondo deles, por exemplo, que se notam nuances e potencialidades que enriquecem as percepções sobre o que e quem está no entorno.

Para garantir cidades mais democráticas e diversas, é necessário um planejamento urbano que priorize a presença das pessoas no espaço, com ruas e calçadas confortáveis, mobiliário adequado, áreas livres para circulação (atividades e descansos) e distâncias compatíveis com o tempo e o corpo.

Planos e projetos desempenham um papel fundamental para esta garantia, assim como o movimento que as pessoas realizam quando se juntam para propor novas formas de ocupar seus lugares de direito, seja caminhando, pedalando, brincando, ou tudo ao mesmo tempo.

Reparar em todos os modos de deslocamento e na forma como os habitantes de uma cidade se relacionam com estas dinâmicas são reflexões educativas. É possível apreender a partir da observação dessas vivências os hábitos de uma comunidade, a maneira como esta encara o mundo, a questão dos tempos e prioridades, sua relação com o espaço público e como isso molda sua convivência e cotidiano, fazendo-a mais ou menos saudável, diversa e sensível.

Para fazer esse exercício de observação e de experimentação é preciso estar no espaço, entendendo-o, praticando-o e discutindo jeitos de exercer a cidadania de maneira mais conjunta, com o tempo e a disposição que só o corpo na rua é capaz de garantir.

PERGUNTAS DISPARADORAS

  • Como as pessoas se locomovem no território?
  • Que meios de transporte utilizam?
  • Como os meios de transporte influenciam a dinâmica local?
  • E a paisagem? Como é alterada por eles?
  • As crianças deste território têm autonomia de deslocamento?
  • E os idosos e pessoas com mobilidade reduzida?