publicado dia 12/12/2016

Tim Gill: Crianças no espaço público são grandes ativadoras de comunidades

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Por Danilo Mekari e Pedro Ribeiro Nogueira

Quando criança, a filha do inglês Tim Gill – uma das maiores vozes do Reino Unido quando o assunto é infância – gostava de frequentar a parte dos fundos da creche, a céu aberto, onde alguns pares de árvores rapidamente se transformavam em uma “floresta” aos olhos da menina.

O exemplo serve para ilustrar uma ideia que Gill defende com firmeza: aproximar crianças à natureza traz benefícios tanto para o desenvolvimento infantil como para a manutenção do meio ambiente. “Uma das coisas que faz uma boa infância é que crianças gradualmente possam conhecer o mundo além de suas casas e escolas. Porque senão, elas não crescem adequadamente, não conseguem a confiança para trilhar seu caminho”, argumenta o britânico.

Autor do livro “Sem medo: crescer em uma sociedade de avesso ao risco”, Gill acredita em um processo de aprendizagem onde “testar fronteiras” seja um eixo central. “Nós dizemos risco quando não sabemos o que vai acontecer. Pode parecer uma palavra carregada, algo ruim, mas ele também pode ser o que faz coisas serem boas, serem emocionantes”, aponta.

"Crianças são as principais ativadoras de vida comunitária"

“Crianças são as principais ativadoras de vida comunitária”

Crédito: Giovani Racca/Flickr

Gill também é um dos criadores da campanha internacional Dia de Aprender Brincando, realizada pela primeira vez no Brasil em 2016. Ele propõe que, ao contrário da filosofia de proteção, os adultos devem lidar com crianças a partir de uma filosofia de resiliência, “onde as ajudemos a compreender como conviver com a incerteza”.

“Se quisermos que as crianças sintam que são parte de uma comunidade, que pertencem à cidade”, prossegue Gill, “que têm direito à cidade, responsabilidade e conexões com outras pessoas, se quisermos que se sintam cidadãos engajadas, nós temos que garantir a oportunidade para elas sentirem essas conexões”.

Tim Gill esteve em São Paulo no final de novembro para participar de um seminário internacional organizado pela IPA Brasil. Durante a estadia na capital paulista, visitou lugares como a comunidade de Paraisópolis e também a sede da Associação Cidade Escola Aprendiz, local onde concedeu a entrevista a seguir.

Cidades Educadoras: O Outroom Classroom Day [No Brasil, ganhou o nome de Dia de Aprender Brincando] começou há pouco tempo e rapidamente se espalhou pelo mundo. Você já disse em entrevista que isso não tem a ver com uma nostalgia dos tempos idos, mas sim como uma demanda atual. É isso mesmo? O que está acontecendo com as crianças?

Tim Gill: Eu considero que a maior mudança nas vidas das crianças, nos últimos vinte ou trinta anos, é que elas estão vivendo cada vez mais tempo “cobertos”, ou seja, não estão vivendo debaixo do céu aberto, estão em caixas, em casa, no quarto, no carro, na escola, na sala de aula, de volta ao carro, no clube, no shopping e depois para casa de novo. Com isso, as crianças estão perdendo essa conexão com o mundo fora das caixas, o mundo natural – as árvores e o verde – mas também com a cidade, suas ruas e suas vizinhanças. E eu acho que isso é um problema. Uma das coisas que faz uma boa infância é que crianças gradualmente possam conhecer o mundo além de suas casas e escolas. Porque senão, eles não crescem adequadamente, eles não conseguem a confiança para fazer seu caminho no mundo. Essa é uma grande preocupação minha.

Cidades Educadoras: O mundo, para a maioria das populações, não é mais natural. Mas ainda assim, é nosso habitat, onde desenvolvemos nossa vida comunitária. No entanto, a sua conformação muitas vezes ceifa esse sentimento de comunidade que é tão importante para o desenvolvimento infantil, a liberdade de brincar e interagir com adultos diferentes. Na sua opinião, como podemos mudar a forma com a qual experienciamos a nossa vida em sociedade?

“o que faz uma boa infância é que crianças possam conhecer o mundo além de suas casas e escolas”

Gill: Há muitas razões de porque é importante uma abordagem que incentiva a vida ao ar livre para crianças, como o livre brincar e a exploração. Há também razões de saúde, de proporcionar uma infância ativa e que não envolva ficar sentada todo o tempo. Há a conexão das crianças com o mundo natural que é importante – e nós sabemos que crianças que se conectam com a natureza são mais propensas a cuidarem do ambiente-, mas também acho que se quisermos que as crianças sintam que são parte de uma comunidade, que eles não são só um filho ou aluno, mas que eles pertencem à cidade, que eles têm direito à cidade, que eles têm responsabilidade e conexões com outras pessoas, se quisermos isso, se quisermos que eles se sintam cidadãos engajados, temos que garantir a eles a chance de sentir essas conexões. E isso não se ensina. Temos que permitir que eles aprendam por si mesmos, pelo dá-e-toma de estar fora de casa, você só tem isso com liberdade. Sem liberdade, não há conexão com a cidade, com o mundo.

Cidades Educadoras: Então é importante garantir o direito ao brincar na cidade?

Gill: Se eles são livres, eles podem transitar, podem fazer coisas erradas e isso é parte de como aprender a ser responsável e compreender que você faz parte de uma rede de pessoas que tem que conviver.

Cidades Educadoras: E tem essa dimensão de errar, de experimentar, que parece ter sido longamente negligenciada pela educação moderna.

Gill: Acho que qualquer adulto, se for honesto consigo mesmo, se olharmos para trás, podemos lembrar coisas estúpidas que fez. Eu subi numa árvore, por exemplo, e joguei coisas nas pessoas e depois descobri que isso não era legal. Aprender é testar fronteiras. E todos podemos lembrar disso, podemos lembrar de erros e professores, mas só aprendemos ao sermos ativos, ao termos experiências próprias e tendo entendimentos que vêm de dentro.

As crianças são esponjas de aprendizado. Nós somos as máquinas de aprender mais eficientes de toda a natureza – os nossos jovens aprendem melhor do que qualquer outra espécie. É por isso que somos tão adaptáveis e flexíveis e, para o bem ou para o mal, a espécie dominante no planeta. Nós podemos responder flexivelmente ao nosso ambiente e fazemos isso porque aprendemos a lidar com a incerteza, as coisas mudam, mas conseguimos lidar com isso. Os outros animais não.

Então, no coração do aprendizado humano, está essa flexibilidade com a incerteza, com os desafios, com as respostas a ameaças etc. Risco é só outra palavra para a incerteza. Nós dizemos risco quando não sabemos o que vai acontecer. Pode parecer uma palavra carregada, algo ruim, mas ele também pode ser o que faz as coisas serem boas, serem emocionantes. Se você vai aprender a andar de bicicleta, você não sabe se vai cair, mas uma hora você está andando sozinho e isso é muito emocionante. Isso é algo muito poderoso e um bom risco. Com o bom risco, você motiva crianças e adultos a aprender o que eles podem fazer e como eles reagem à incerteza. Pode ser risco físico, social (viajar sozinho ou ir numa festa), risco psicológico, são algumas das experiências mais impactantes, especialmente para crianças.

Criar bons espaços públicos é fundamental para uma cidade para crianças.

Criar bons espaços públicos é fundamental para uma cidade para crianças.

Crédito: Núcleo Editorial /Creative Commons

Cidades Educadoras: E existe todo esse medo, hiperdimensionado, sobre os perigos da vida fora de casa e da escola, sendo que muitas vezes, é dentro de casa que acontecem a maior parte dos acidentes.

Gill: Eu considero que as crianças são mais confiantes, competentes e capazes do que nós julgamos que elas sejam. No meu trabalho, eu falo sobre essa mentalidade de “risco zero”, de que elas são tão vulneráveis que temos que excluir todo o risco. Mas isso não é verdade. Se nós olharmos como elas aprendem e vermos como elas respondem aos desafios, você verá que elas são competentes. Evidentemente, elas não são adultas, não dá para esperar que uma criança de três anos atravesse uma avenida ou uma de seis construa uma casa, mas elas são mais competentes que imaginamos. Então, ao invés de ter uma filosofia de proteção, precisamos ter uma filosofia de resiliência, que nós as ajudemos a compreender como conviver com a incerteza. Elas são boas de aprender a responder a desafios. Elas não são essencialmente vulneráveis. É essa a mentalidade que temos que transformar.

Cidades Educadoras: Os professores muitas vezes afirmam ter medo de sair com os estudantes da escola, de explorar o território, de sair dos espaços controlados e ver o que o espaço público pode educar. O que o senhor diria sobre este receio dos professores?

Gill: Bons professores entendem que crianças aprendem melhor quando estão alongadas, quanto não estão entediadas ou quando podem descobrir por conta própria e ter controle sobre seu aprendizado. Mas, ainda assim, eles se preocupam que se algo der errado e eles sejam culpados, processados ou demitidos. Então eu acho que, além de saber discernir o que é seguro ou não, os professores precisam também que seus diretores e os políticos não os culpem se algo – que não é culpa deles – der errado. Isso foi algo que aprendemos no Reino Unido: você precisa que os gestores, legisladores e a mídia entendam que liberdade e ar livre são bons riscos e que quase nunca algo ruim vai acontecer. E os professores precisam sentir que eles podem fazer essas escolhas e que se suas decisões são razoáveis, os gestores vão apoiá-los.

Cidades Educadoras: O que uma cidade precisa para ter crianças no espaço público?

Gill: Eu acho que cidades precisam ser lugares seguros para crianças. Se o ar está poluído, é um desafio que temos que encarar, se o tráfego está ruim, também. Nós temos muitos carros, viajando rápido demais e em muitas vizinhanças, então para termos uma cidade para crianças precisamos enfrentar isso.

“as crianças também precisam aprender a ser cidadãs, a aprender como seu bairro se formou e qual a história da sua cidade”

Como isso é uma tarefa enorme, vamos tentar olhar em uma escala menor: melhorar parques e praças, o que enfim, acho que é simples, nós somos animais sociais, nós gostamos de estar no convívio, uns com os outros, então se a gente conseguir um espaço público vivo e acolhedor, com pessoas, atividades, programações, festivais e até um café, você pode melhorar esses lugares e começar a atrair idosos, famílias, jovens, enfim, dar vazão àquele sentimento bom de um espaço público que está cumprindo sua função.

Cidades Educadoras: Então quando você adota a criança como denominador comum das cidades, você está criando ambientes mais saudáveis, inclusivos e solidários para todos? A criança é um ativador de comunidades nesse sentido?

Gill: Eu sou um grande fã do Henrique Peñalosa [prefeito de Bogotá, capital da Colômbia, entre 1998 e 2001] que tinha um slogan de que a criança é um índice para a cidade, ou seja, se ela está boa para uma criança, ela está boa para todos. E nós sabemos disso: uma pesquisa recém-publicada na Inglaterra, olhando para a questão do espaço público mostra que as pessoas querem estar no espaço público socialmente, mas que as crianças são seus maiores usuários e onde mais crianças usam, mais adultos usam também. Então elas são geradoras de vida comunitária.

Cidades Educadoras: Você vê alguma relação entre isso e o conceito de Cidade como um território educativo?

Gill: Eu entendo que a educação é um processo de crianças aprendendo a viver. E claro que elas precisam aprender a ler e escrever, ciências e literatura, mas elas também precisam aprender a ser cidadãs, a aprender como seu bairro se formou e qual a história da sua cidade. Eu não entendo esse conceito profundamente, mas eu gosto dessa ideia de que a partir desses aprendizados, ao explorar e conhecer a cidade, e não apenas em livros e nas salas de aula, elas crescem e a cidade cresce com elas.

Cidades Educadoras: Você comentou que conheceu Paraisópolis nessa sua passagem por São Paulo. Como você articularia tudo que conversamos até agora com o contexto daquela comunidade?

Gill: Eu conheci muito brevemente o lugar, mas fiquei com uma sensação de ser uma comunidade onde as pessoas se conhecem e se ajudam, com um sentido coletivo muito forte. Acho que as crianças gostam disso. Apesar de todas as dificuldades, se você crescer naquela comunidade você se sente parte daquele lugar. Mas é muita gente vivendo junto, casas precárias, falta infraestrutura e faltam espaços verdes e lugares para sentir calma, paz e tranquilidade. E as crianças precisam disso. Claro que há muito a ser resolvido, mas eu sei que a vida seria melhor com algum verde, lugares calmos, onde a cidade fosse para o plano de fundo.

Cidades Educadoras: Quando se fala em ir para o ar livre, para grande parte das pessoas, sobretudo aquelas que vivem nas periferias das grandes cidades do mundo, pode soar uma abstração. Neste cenário, como começar a proporcionar as condições de direito à natureza, ao verde, ao livre-brincar e aprender?

Gill: Eu diria que, para as crianças, sair para fora de casa é uma parte crucial da jornada da infância, ou seja, de aprender o que fazer, como se movimentar, como resolver disputas, como levar adiante seus projetos e interesses, tudo isso vem da liberdade diária. Isso pode acontecer em qualquer vizinhança – e deve acontecer.

Agora, uma parte da “dieta de experiências” que toda criança precisa, tem que ser verde. Nem que sejam algumas árvores. Uma pequena área verde pode ser um oásis para a infância. Eu lembro que na creche da minha filha tinha quatro árvores no fundo e elas chamavam de “a floresta”. Para elas era um lugar emocionante. Quando se fala de espaços verdes, não estamos falando nem de um grande parque, pode ser um pouco de sombra e sentimentos de natureza.

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“Crianças brincando – com adultos e crianças – e exercitando a empatia serão menos egoístas”.

Crédito: Roberto Vinicius/Flickr/Creative Commons

Cidades Educadoras: Como você acha que podemos convencer os adultos de que uma cidade para crianças pode ser benéfico para eles também?

Gill: Eu gosto de perguntar aos adultos, quando dou palestras, quais são suas memórias infantis. Isso ajuda a ver o mundo com olhos novos e acho que parte de uma boa infância é se sentir conectado, seguro e confiante em sua comunidade, mas eu diria para adultos que é interessante ter crianças que se sintam parte da cidade e de sua sociedade, porque crianças que não sentem isso, quando elas crescem, que adultos serão? Serão egoístas e não irão se importar com o mundo, com as pessoas, não vão votar, não vão querer melhorar as vidas ao seu redor e não irão querer dar nada de volta para as pessoas. Crianças brincando – com adultos e crianças – e exercitando a empatia serão menos egoístas e verão que o mundo não gira ao redor delas.

Cidades Educadoras: Qual a sua avaliação da campanha Dia de Aprender Brincando?

Gill: Eu acabo de lembrar que ele começou em Londres por causa de algumas pessoas que se envolveram em um trabalho que eu escrevia, sobre reconectar crianças de Londres com a natureza, a partir do livro do Richard Louv. Então, criamos um dia para que os professores garantam que as crianças estarão livres. É claro que queremos mais, mas é um passo importante nessa jornada dos professores.

Cidades Educadoras: Falamos muito sobre os benefícios da natureza para as crianças. E ao contrário, como seria isso?

Gill: Podemos dizer que as crianças precisam de natureza. Mas também que a natureza precisa das crianças. Nós sabemos isso. Os ambientalistas, conservacionistas e quem cuida do clima, sabe que tem que começar com as crianças, suas experiências e permitir que elas construam essa conexão emocional, não apenas ensinar o que é o ambiente, mas deixar que elas fiquem com os pés enlameados, que cacem insetos, vejam o vento soprar, sintam o cheiro, sejam livres e fortaleçam a ligação que todos dividimos com o planeta.

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