publicado dia 10/11/2017

Navegar é preciso: grupo de teatro reinventa a cidade a partir da escuta de crianças

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São Paulo. Avenida Consolação. Um rio de carros desce o asfalto no horário de pico em direção a Praça Roosevelt, no centro da cidade. Skatistas se espatifam nos relevos de concreto, enquanto passantes têm na orelha em concha um celular. Como que saído da mais mirabolante fantasia, um barco feito de isopor atravessa a faixa de pedestres. A cidade para e, generosa como raramente é, ignora o sinal verde e permite que a embarcação avance seguida por uma trupe de crianças. Com giz em mãos, elas se espalham pela praça, retomando em rabisco e brincadeira o espaço público.

Essa foi uma das experiências realizadas pelo Navegar, projeto desenvolvido pelo grupo teatral Esparrama desde o final de 2016 na capital paulista. Contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo, o grupo investigou finalmente se debruçar sobre uma temática que já tinha se revelado importante ao longo dos cincos anos de atuação na rua: afinal, como a cidade se relaciona com suas crianças?

A investigação em torno do binômio cidade-criança nasce em uma janela de frente para o viaduto Elevado Presidente João Goulart, popularmente conhecido como Minhocão, onde o grupo apresentava o espetáculo Esparrama pela Janela. Composta por um conjunto de esquetes em que um morador incomodado pelos constantes barulhos do viaduto subverte-os de forma poética e devolve-os para o mundo, a obra era encenada aos domingos da janela de um dos edifícios e tinha a plateia instalada no asfalto. A ideia era diluir as fronteiras que separam espaço público e privado, ocupando uma polêmica infraestrutura da cidade.

Palco de disputas, o viaduto com futuro indefinido também acolheu a peça Minhoca na Cidade, uma alegoria dos medos de uma menina que se muda do interior para a monstruosa cidade. No texto, minhocas de preocupação saíam de sua cabeça, crescendo o suficiente para virar um Minhocão. Corajosa, ela então decide sair da janela e se deslocar para o viaduto, armando uma vela de barco no poste e gritando: “NAVEGAR!”. Da janela para as ruas, a pergunta que ecoava ainda sem resposta era:

“Afinal, que cidade é essa que estamos colocando a menina para navegar?”.

Para navegar é preciso escutar

No final de 2016, o Esparrama decide então criar o projeto Navegar – uma Expedição por Imaginários, uma investigação sobre como a infância vive a cidade. A proposta era criar espaços de diálogos para coletar poeticamente impressões, desejos e angústias das crianças para com a urbanidade. Criada com o respaldo pedagógico da arte-educadora Laila Sala, que também atua no Centro de Educação Unificado (CEU) Arlete Persoli, em Heliópolis, a pesquisa adotou como poética a navegação: a cidade se converteu um território a ser explorado com bússolas, mapas e lunetas, por uma tripulação de atores e crianças.  

“Marcamos três expedições: as escutas, realizadas com três grupos distintos de crianças; em sequência, uma exposição navegante fruto da materialidade artística coletada; e, por fim, um espetáculo que está sendo produzido a partir das nossas vivências”, explica Luciana Gandelini, integrante e assessora de comunicação do Esparrama.

Os grupos escolhidos foram estudantes da EMEI Gabriel Prestes, o Grupo de Teatro da ocupação Hotel Lord Palace e crianças do Centro para Crianças e Adolescentes (CCA) Mina, no bairro de Heliópolis. Era importante não somente trabalhar com distintas faixas etárias, mas também com as múltiplas cidades que se apresentam para os habitantes dos territórios.

A estrutura basilar foi: nos aproximar com um convite atraente, que fisgasse a atenção das crianças. Em seguida, escutar e dialogar com elas, desenvolvendo um campo de jogos a partir das necessidades de cada localidade. Uma despedida marcava o fim do processo e também a deixa de uma materialidade que simbolizasse a experiência”, relata Luciana.

Navegar é preciso!

O grupo de navegadores do Esparrama teve o azar de quebrar seu barco nas redondezas da EMEI Gabriel Prestes, no centro de São Paulo. Mas também teve muita sorte. Ao entrarem na escola e perguntarem para as crianças de cinco e seis anos se havia entre eles algum especialista em conserto de barco, todas responderam efusivamente que sim. Fingindo precisar de ajuda para voltar a navegar, o grupo convidou os estudantes a revisitar seus trajetos e arredores, tanto de casa como da escola.  

Ajudando um personagem desmemoriado a conhecer a cidade por meio de fotografias e desenhos, ou alimentando um medrônomo – máquina que condensa temores desde o de voltar para casa sozinho ou de uma bruxa dentro de um tubarão -, as crianças mostraram que a cidade que as cerca nem sempre é gentil, mas há um desejo de conhecê-la melhor. Assim, no última dia de escuta, elas ocuparam a Praça Roosevelt.

“As pessoas paravam de falar no celular, os comerciantes saíam das lojas e os carros não buzinavam à lenta passagem do grupo. A cidade toda se transforma quando você tem um grupo de crianças andando pela rua”, defende Rani Guerra, um dos atores integrantes.

Dois grupos de teatro se encontraram para discutir uma cidade possível. Um era o Esparrama, que levou os atores para uma estratégia de encenação de personagens perdidos pela cidade. O outro era formado por atores de oito a 14 anos, ocupando a Funarte com o primeiro grupo de teatro saído da ocupação Hotel Lorde Palace. Para tornar apelativo o convite de escuta, o Esparrama compreendeu a necessidade de usar ferramentas teatrais, como conta o diretor e integrante Iarlei Rangel: “A cada semana, levávamos jogos teatrais que, além de aprimorar a técnica do grupo, faziam com que eles questionassem assuntos como deslocamento na cidade, medos e lugares perigosos, como também o uso de espaços públicos”.

Das discussões calorosas, vindas de pré-adolescentes cujo contexto é o de militância por moradia, foram criados dois bonecos, que alegorizavam as impressões boas e ruins sobre a cidade e o mundo. Os bonecos foram protagonistas de uma troca inesperada: o grupo montou um espetáculo – o seu primeiro – para apresentar em Heliópolis, um dos territórios de escuta escolhido pelo Esparrama.

No dia da despedida, o grupo teatral infantil levou o Esparrama pela mão, ocupando o espaço cedido pela Funarte em uma encenação carregada de desejo que a rua seja palco de aprendizados. Luciana comenta com emoção que uma das falas mais marcantes foi a de uma jovem atriz que afirmou ter aprendido com o Esparrama tanto quanto eles aprenderam com ela.

“Éramos atores do mesmo bairro, atuando em pé de igualdade pela ocupação da cidade.”

Helipa: território do brincar

O bairro de Heliópolis possui uma trajetória de movimentação social: a EMEF Campos Salles já teve muros entre escola e comunidade derrubados por iniciativa dos estudantes e professores. Não é à toa que, no processo de escuta dos alunos do CCA Mina com o grupo Esparrama, tenha aparecido fortemente o ideal de defesa do espaço público. Durante um jogo rouba-bandeira, que nasceu sob a temática de reconstrução da cidade, os jovens entre oito e 15 anos foram abordados pelos atores. Vestidos de advogados, eles interromperam a brincadeira, alegando que aquilo era um espaço privado e que não podiam mais brincar.

“O atravessamento em Heliópolis foi intenso. Ainda que soubessem que estávamos encenando, quando levamos um dos alunos presos para uma sala, todos os outros se uniram em protesto”, afirma Luciana. “Uma das alunas entrou debaixo da mesa e disse que estava ocupando o espaço até que seu amigo fosse solto. É uma consciência política que vem da vivência dessas crianças em um território de vulnerabilidade, mas também de muita luta”. Isso se confirmou na despedida, quando os jovens levaram os atores por cada espaço caro a eles no bairro, como a biblioteca e a rádio comunitária.

“Uma das cenas que mais me marcou foi quando perguntei às crianças: ‘Uma pessoa com dinheiro vai comprar essa terra. Vocês crianças não têm dinheiro. Vocês acham então que têm direitos? Todas elas responderam no fervo que sim. E uma ainda clamou: ‘Isso aqui não é propriedade privada, isso é propriedade do brincar!”

Para onde se espalham as próximas navegações?

“Quando acontece uma escuta, acontece também a diminuição de hierarquias. Os jogos teatrais e as brincadeiras permitem que o adulto e a criança criem juntos um espaço de igualdade, onde os pequenos não são subestimados e os grandes são colocados diante de reflexões diferentes sobre problemas complexos, como a especulação imobiliária”, explica Iarlei.

O diretor se surpreendeu ao entender o papel da cidade na construção de um currículo de uma formação integral.  “Educação Integral é muito mais do que enfurnar crianças e adolescentes em um contraturno desconectado da realidade. É pensar que a educação é feita na comunidade, pela cidade, principalmente fora da escola! É meu papel como educador e também como artista entender como integrar a cidade na ação educacional. E eu acho que as escutas são um bom começo!”

Hoje, o Navegar se converteu em uma exposição itinerante que reúne a materialidade produzida nos encontros realizados com as crianças. Em cartaz no CEU Butantã, ela migrará para o CEU Guarapiranga e também para a FUNARTE. Enquanto navega por diferentes territórios, ela também forma educadores para que desenvolvam metodologias de escuta com seus estudantes. O Projeto Navegar está previsto para acontecer até março de 2018.

“Tudo na cidade pode ensinar muito às crianças. Desde as árvores que ficam no pátio, o tio da cantina escolar, à venda que fica na frente do colégio. Agora, o desejo é expandir o projeto Navegar para outros territórios, diminuindo a distância entre o que acontece nos palcos e nas escolas”, finaliza Luciana.

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