Playable City

Publicado dia 22/12/2016

Em Bristol, na Inglaterra, é possível enviar mensagens de texto para uma caixa de correios instalada no meio da rua – e receber de volta uma resposta que dará início a conversas sobre a história e a memória gravadas naquela região da cidade.

Além de Bristol, a experiência da Playable City já foi replicada em Recife, capital de Pernambuco, em 2013 (veja aqui como foi) e, mais recentemente, em Tóquio (Japão) e Lagos (Nigéria). “Queremos construir uma estrutura para conectá-las como Playable Cities e criar uma rede para aprenderem entre si e se ajudarem”, afirma Hilary.

Durante dois meses do verão de 2013, a experiência Hello Lamp Post ofereceu aos moradores de Bristol a oportunidade de redescobrir o ambiente urbano e dividir lembranças da cidade, revelando-se como uma potente plataforma de troca de histórias entre as pessoas. Uma chance de diminuir a velocidade do cotidiano, refletir e se permitir brincar com um mobiliário urbano muitas vezes ignorado.

A ideia é uma das ações propostas pelo projeto Playable City – em tradução livre, Cidade Brincável. Criado pelo Watershed, um centro cultural que trabalha com a criatividade digital, o conceito propõe uma abordagem lúdica para os espaços públicos de Bristol, apostando que esse tipo de experiência pode capacitar cidadãos a enfrentar os desafios futuros das cidades.

“A Playable City é uma cidade onde a abertura para o novo são fundamentais, pois permitem que seus moradores reinventem serviços, lugares e histórias.”

Cidade brincável

“Ao redor do mundo, existem projetos interessantes se apropriando de espaços públicos das cidades, questionando e propondo um modo de utilizá-los”, afirma Hilary O’Shaughnessy, produtora cultural da Watershed. “Ao mesmo tempo, vemos muitas pessoas usando tecnologia de maneiras inteligentes. Por que não usá-la para juntar as pessoas na cidade?”

Segundo Hilary, o conceito de cidade brincável surge como contraponto ao de Cidade Inteligente, já que o principal foco das ações está na interação entre as pessoas – e não entre elas e a tecnologia. “A Playable City é uma cidade onde as pessoas, a hospitalidade e a abertura para o novo são fundamentais, pois permitem que seus moradores e visitantes reconfigurem e reescrevam seus serviços, lugares e histórias”, descreve a britânica.

“Não se pode fazer um projeto e esperar que as pessoas se envolvam com ele – elas precisam se engajar desde o começo e gostar daquela ideia. Mais participação cidadã significa maior impacto”, acredita Hilary.

“A Playable City é uma cidade onde a abertura para o novo são fundamentais, pois permitem que seus moradores reinventem serviços, lugares e histórias.”

De acordo com ela, a ação Hello Lamp Post atingiu grande sucesso nas regiões em que foi testada por ser “simples e impactante”. “Através de pequenas interações, as pessoas passam a pensar em diferentes aspectos da cidade que normalmente são esquecidos”, observa. Outras intervenções marcantes – e inclusive vencedoras do Prêmio Playable City – foram a Shadowing, que permitiu aos cidadãos brincarem com as sombras geradas por postes de luz, e a Urbanimals, que projetava insetos e animais nas ruas, paredes, casas e edifícios de Bristol.

Espaços públicos, espaços lúdicos

Outra ação que repercutiu no mundo foi o escorregador de água colocado estrategicamente em uma das principais avenidas da cidade. “Brincar é fácil e algo que todo mundo pode fazer – de qualquer idade, qualquer gênero, qualquer lugar. Não existe jeito certo ou errado de brincar, é uma ação autônoma na qual utilizamos nossas mentes e corpos em sua totalidade. É ainda um jeito poderoso de convidar pessoas para trocar ideias e estabelecer conexões.

Ter coragem de abrir a cidade para experimentos. Essa é uma das características necessárias a uma cidade que pretende se transformar em um ambiente brincável. “Muitas cidades separam as pessoas em suas políticas públicas: há uma destinada às crianças, outra para adolescentes, uma para a terceira idade. Os gestores públicos devem pensar mais em espaços onde haja mistura e liberdade para os cidadãos usarem a cidade do modo que bem entenderem”, argumenta a produtora.

E arremata: “As pessoas precisam de espaços para estarem juntas. Elas saberão o que fazer com eles, aprendendo entre si e dividindo conhecimento”.

Tim Gill: Crianças no espaço público são grandes ativadoras de comunidades