Criança Fala, Escuta Glicério

Publicado dia 20/09/2016

Como seria uma cidade pensada por e para as crianças? Foi a partir desse questionamento que teve início, em 2015, o “Projeto Criança Fala na Comunidade – Escuta Glicério!” , no bairro de mesmo nome, localizado na região central da cidade de São Paulo.

O objetivo do projeto é, por meio de uma metodologia lúdica de escuta, incluir em políticas públicas, projetos arquitetônicos e pedagógicos, além de equipamentos, o que falam, pensam, veem e querem as crianças que vivem nessa região.

Durante o processo, educadores, psicólogos e urbanistas juntaram esforços para pensar como fazer do bairro que fica às margens do Rio Tamanduateí um espaço saudável principalmente para as crianças que lá moram.

Tudo teve início com a escuta dos pequenos. O que achavam do lugar onde viviam? Como gostariam que fosse a praça perto de casa? E a própria casa? Esse processo se deu de maneira muito lúdica, já que é por meio das brincadeiras e jogos que as crianças aprendem e também criam suas visões de mundo.

Mapa Afetivo do Glicério

Mapa afetivo

Mas para que isso ocorresse, foi preciso escutá-las com atenção. Uma das primeiras etapas da iniciativa, foi caminhar com as crianças pelas ruas e espaços públicos que frequentavam, perguntando a elas tudo aquilo que achavam. Mais que isso, a experiência permitiu também reconhecer a afetividade que cada local trazia para as crianças.

Logo após as caminhadas, os responsáveis pela atividade pediram às crianças que desenhassem um mapa afetivo com tudo aquilo que haviam presenciado nos trajetos percorridos. Os desenhos eram os mais diversos e de variadas cores, mostrando como a criança enxerga a cidade.

O mapa, para além de sua função geográfica, cumpriu a função de mostrar a importância dos mais diversos espaços para as meninas e meninos do bairro. Janelas grandes, uma casa branca, a geladeira, a vendinha da esquina ou o bar da coxinha. Além de expressarem seus desejos por meio dos desenhos, as crianças também falavam aquilo tudo que sonhavam para o bairro, o que ia desde um um elevador para o trabalho a um palco de teatro.

Além desse processo, as crianças da região puderam viver também uma real experiência de cidadania. Após alguns meses construindo o processo, meninas e meninos de diferentes idades saíram pelo território com desenhos, textos e poesias nas mãos  acompanhadas por um grupo de Maracatu.

Cortejo Glicério

E foi justamente essa articulação comunitária a responsável por dar novas cores à região. Os desenhos das crianças foram transpostos para os muros e ruas do espaço. Segundo os moradores, isso mudou drasticamente o uso do espaço. O leitor curioso e o educador interessado encontrarão na publicação muitos dos tesouros que este projeto descobriu.

Entre relatos poéticos e reflexões, vão se abrindo possibilidades de leitura e novas maneiras de enxergar a cidade, a partir de quem a vê de mais baixinho. Os desenhos e textos vão colocando em diálogo a cidade interna de cada um com a percebida pelas crianças, e nesse conversar, o espaço público ganha ares lúdicos, de imaginação.

Dentro da cartilha, abundam fotos do processo, de suas brincadeiras, assim como desenhos das crianças e o mapa afetivo da região. Não faltam aproximações férteis entre urbanismo e educação, mostrando na prática que a cidade pode ser educadora.