Projeto Circular

Publicado dia 21/09/2016

O município de Belém, capital do Pará, chega em 2016 a seu quarto centenário de existência. Fundada em 12 de janeiro de 1616, a cidade das mangueiras já foi sede de prosperidade e desenvolvimento durante o Ciclo da Borracha e tem marcado em sua história e cultura o estopim da Cabanagem, revolta popular contra o império do Brasil que durou de 1835 a 1840.

No último século, assim como grande parte das metrópoles brasileiras, Belém do Pará atravessou um período de inúmeras transformações urbanas que marcaram profundamente o seu território. Os bairros que deram origem à cidade, como Campina, Reduto e Cidade Velha, hospedam casarios e monumentos tombados, mas foram gradualmente abandonados pela gestão pública, que viu a criminalidade crescer na região, assim como a sensação de insegurança da população belenense.

O sítio histórico, formado por esses três bairros e influenciado por diversas gerações de migrantes e imigrantes que cruzaram o país e os oceanos para construir em Belém uma arquitetura que a levou ser apelidada de “Paris n’América”, hoje encontra forças para sair dessa situação justamente na articulação comunitária e na criação de um espaço comum para a circulação e o encontro de pessoas.

Trata-se do Projeto Circular, um projeto que começou como um plano piloto, em 2013, com a intenção de resgatar o prestígio do centro histórico de Belém. Com o sucesso das primeiras investidas, foi lançado oficialmente em 2014 com seu atual formato: a cada dois meses, a iniciativa promove ações socioculturais para que o público se sensibilize perante o rico patrimônio material e imaterial da capital paraense.

Projeto Circular Belém

Música na rua também acontece durante os Circulares.

Crédito: Danilo Mekari

A ideia é que os mais de 30 estabelecimentos locais que fazem parte do projeto – entre ateliês, galerias de arte, museus, lojas, espaços culturais, escolas de música, bares e restaurantes – abram as portas nesses domingos e funcionem como um circuito de intensa programação cultural, artística e gastronômica.

De acordo com Camila Fialho, produtora do Circular, o projeto tem crescido a cada edição. “De volta às ruas aos domingos, nesta região da cidade que em geral fica deserta, pois é essencialmente comercial, a população tem tempo de olhar com mais cuidado muitas coisas que até então eram desconhecidas ou que passavam desapercebidas, como a arquitetura, as ruas, o patrimônio e, com isso, observar ao mesmo tempo a beleza e a sujeira que convivem no berço da cidade”, reflete.

Uma pesquisa de 2012 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou o norte do Brasil como a região com o menor índice de sensação de segurança. Especificamente no Pará encontram-se os percentuais mais baixos em três categorias: 64,8% da população paraense se sente segura em suas casas, ao passo que 49% se sentem seguros nos seus bairros e apenas 36,9% se vê segura na cidade onde vivem.

Segundo Fialho, um dos objetivos primordiais da iniciativa é reverter o atual estado de degradação e abandono desses bairros. “Trazer de volta a população às ruas vai no contra fluxo da ‘cultura do medo’ instaurada pela violência e alimentada diariamente pelas mídias. Com medo da violência, as pessoas tendem a se trancar em casa, sair menos, conviver menos com a cidade, ocupar menos o espaço público.” Para ela, incentivar a circulação das pessoas pelas ruas da cidade e o uso do espaço público, sobretudo de praças em desuso, são propostas para enfrentar a violência.

Tainah Fagundes, da loja DaTribu, localizada no bairro de Campina, uma marca de acessórios sustentáveis de moda, desenvolvidos com reutilização e reaproveitamento de diversos resíduos, afirma que “o Circular é um respiro que envolve parceiros com as mesmas ansiedades e angústias que nós. É muito importante mostrar o que tem de novo na cidade, é como o frescor da cultura se espalhando pelo bairro”.

Arte em Belém

Nos domingos de Circular, arte se espalha pelo centro histórico de Belém.

Crédito: Danilo Mekari

Gastronomia

Dono de um dos botecos mais simpáticos de Belém, Rubem Estevam Lobato, conhecido popularmente como Rubão, tem 65 anos e é “nascido e criado” na Cidade Velha, como ele mesmo diz. Seu estabelecimento comercial faz parte do projeto “pois ele não é bom apenas para o meu bairro, mas para a cidade como um todo. Estávamos precisando disso”, afirma.

Há 22 anos situado na Travessa Gurupá, o Bar do Rubão oferecerá no Circular variações que não costumam aparecer em seu cardápio, como pato no tucupi, maniçoba e pirarucu defumado. O boteco, que geralmente não tem espaço para músicos, contará ainda com uma roda de pagode e um cordão de pássaros para “movimentar a nossa cultura”, segundo Rubão.

Ícone local por conta de seu famoso prato de caranguejo, Rubão se entristece ao falar da atual condição de seu bairro. “A Cidade Velha mudou muito. As pessoas ficaram mais fechadas, muitos se mudaram pra apartamentos, muitas casas estão vazias. Antigamente todo mundo se conhecia, a vida era aqui, tudo bem familiar. Agora isso não existe mais.”

Roteiros urbanos

Ações e iniciativas de outros coletivos também se somam ao Circular. É o caso do Roteiros Geo-Turísticos, projeto de extensão do Grupo de Pesquisa de Geografia de Turismo (GGEOTUR) da Universidade Federal do Pará, que desde 2011 promove caminhadas gratuitas, educativas e culturais pelo centro histórico belenense.

De acordo com a coordenadora dos Roteiros, Maria Goretti Tavares, os encontros acontecem duas vezes por mês e já contaram com a participação de cerca de 4.500 pessoas – a grande maioria formada por moradores da própria cidade. “Conhecer a sua cidade é o primeiro passo para a população se organizar e buscar melhorias de qualidade de vida.”

Arquitetura, cultura, geografia e a produção do espaço urbano na cidade são alguns dos temas comentados durante o passeio, que pode durar até quatro horas. Hoje já existem sete roteiros diferentes a serem percorridos na região. Na próxima edição do Circular haverá um trajeto especial sobre os 400 anos de Belém – além da comemoração de cinco anos dos Roteiros.

A área compreendida pelo centro histórico da capital paraense foi tombada pelo IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 2012, mas Goretti não acredita que isso garanta a preservação do patrimônio local. “A educação é fundamental para mudarmos essa realidade.”